sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Troca do "LH" pelo "i"

O “trabaio” que dá para falar “trabalho
                                                   PoR: Ninga Fonseca e estelita alves

Resumo:
Este artigo trata a respeito do fenômeno yeísmo  transformação do “LH “  em “I”  com a finalidade de refletirmos acerca do fato de alguns tipos de variações linguística serem  estigmatizados do que outros. A partir de comparações entre o português, o francês e o espanhol, são apresentadas, brevemente, duas explicações, uma externa à língua e outra interna a ela, para a transformação da consoante /   / em / i / no português não padrão.
Palavras chave: yeísmo – preconceito Linguístico – português

INTRODUÇÃO:

Pretende-se neste trabalho apreciar a abordagem, sobre a transformação do “LH” em “I”, feita por Marcos Bagno, no livro: A língua de Eulália. Também tomamos como base as considerações acerca de preconceito e variação linguística apresentadas pelo mesmo autor no livro Preconceito Linguístico e por Beline (2005) em Introdução à linguística: objetos teóricos.
Este trabalho justifica-se pela importância de se refletir sobre a língua e suas variações, uma vez que o preconceito lingüístico está presente na sociedade e, principalmente, no meio acadêmico.
Este artigo contribuirá para a desconstrução de estereótipos e pré-conceitos em relação àqueles que não utilizam a língua padrão, pois tentaremos explicitar, conforme afirma Bagno (2001) que o português não padrão é apenas diferente do português padrão, mas igualmente lógico, bem estruturado e acompanha as tendências naturais da língua quando não refreada pela educação formal.

DESENVOLVIMENTO

A Língua faz parte de um processo histórico, social e cultural, em que as suas manifestações ocorrem espontaneamente ou “engessadas”, como postula a Norma Padrão. De acordo com Bagno, existe um distanciamento entre o PP (Português Padrão) e o PNP (Português Não Padrão).
  O fato de que a língua está sempre se inovando e de que essa inovação pode ser motivada por fatores contextuais, culturais e regionais é negligenciado. Bagno (2002:67) diz:
enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detêm seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renova quando vier a próxima cheia.

A língua é viva e está em constante evolução: gírias, dialetos, neologismos estrangeirismos fazem parte dela, dessa ebulição que a mantém animada.
Ao se falar em variação linguistica, ou seja nas variantes que uma determinada língua apresenta,em um sentido mais amplo, podemos pensar nas diferentes línguas que existem no mundo. Em cada país se fala uma língua e dentro desses países existem outras línguas diferente da oficial. Focalizando o assunto,  um dos aspectos mais conhecidos dessa variação é a diferenciação que caracteriza os chamados dialetos ou variedades regionais: o português  que falamos em Minas, por exemplo,  é “bastante diferente” do falado no Ceará, o que não nos impede que nos comuniquemos, é claro.  Beline (2005, p.122) fala em:
variação diatópica ― aquela em que se faz referência a um mesmo elemento do mundo por mais de um termo linguístico, ou um mesmo vocábulo pronunciado de formas diferentes ―  e variação diafásica ― aquela que considera o momento de enunciação, o contexto, a situação ( mais formal ou menos formal).
É inevitável falarmos de preconceito  linguístico ao abordarmos o tema variação linguística, pois
ele  se baseia na crença de que só existe uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas, explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários. Qualquer manifetsação linguística que escape desse triângulo escola-gramática-dicionário é considerada errada, feia estropiada, rudimentar, deficiente.”  (Bagno, 1999, p. 37).
No entanto, por que será que alguns tipos de variações são mais estigmatizadas do que outros? Quase ninguém se incomoda se alguém não fala os “erres” dos infinitivos, como em: “Vou corrê* para chegá *”. No entanto, se o falante diz “A Cráudia vai” alguns dizem que isso até lhes doem os ouvidos. Bom, não trataremos desse fenômeno no presente trabalho, mas sim do yeísmo  a transformação do “LH “  em “I” .
A transformação do “LH “  em “I” [1], é um desses casos que “agridem” alguns ouvintes. Pronunciar  “trabaio” ao invés de trabalho, por exemplo, é muito mal visto em nossa sociedade. Normalmente associa-se esse “erro” a pessoas com baixa escolaridade. Mas o que realmente ocorre é que, em algumas variantes do português não padrão, o som consonantal /   / não existe, assim como não existe  a consoante que em inglês se escreve TH, como em “thing” (coisa).
            No espanhol isso também acontece, as consoantes LL /    / equivalentes ao “lhê” do português padrão são pronunciadas apenas na região de Castella, no restante da Espanha esse som se tranforma em / i / como o “i” da palavra pai, e por isso se escreve caballo (que significa cavalo), em Castella se diz  cabalho e em variantes populares se diz cabaio.
            De acordo com algumas considerações de Bagno (2003), fato semelhante ocorre também no  francês padrão: abeille se pronuncia abéy; ail (ay), bataille (batáye). No entanto, na França isso não é considerado erro. Para o autor, uma das explicações para o
total apagamento da consoante /    / no francês padrão é  a proximidade e comodidade que o falante tem de pronunciar o / i /  ao invés do /   / . A consoante /    / é produzida com a ponta da língua tocando o palato, muito perto do ponto onde é produzida a semivogal /y/. Prova que isso acontece é o fato de estrangeiros pronunciarem trabaio*, véio*,abêia quando estão aprendendo o português, pois em sua língua não tem a consoante /   / e sentem dificuldade em pronunciá-la, por isso substituem-na pelo som mais próximo que encontram, que é justamente o /y/. 
O importante para os educadores é terem em mente que o português não padrão é diferente do português padrão, mas igualmente lógico e bem estruturado (Bagno, 2001, p.63) e não se deixarem influenciar pelos livros didáticos, pois alguns parecem trazer uma abordagem mais atual no que se refere à variação linguística, no entanto processos como o yeísmo são tratados muitas vezes apenas de modo  caricato e debochado em charges e tirinhas.
CONCLUSÃO:
Falar “trabalho” é muito mais difícil do que “trabaio”, não só no que se refere aos processos articulatórios envolvidos, mas, principalmente, do ponto de vista social. Dizer “trabaio” implica se colocar no mesmo lugar daqueles que estão, de certo modo, à margem da sociedade, dos que tem baixo poder aquisitivo e baixa ou nenhuma escolaridade. Isso no Brasil, porque o mesmo fenômeno ocorre na França, conforme vimos, com o francês padrão, e isso não é mal visto. Ou seja, o fenômeno é o mesmo, mas o modo de encará-lo não é o mesmo, não tem o mesmo peso.
Ao refletirmos sobre a ocorrência do yeísmo no português, verificamos que aqueles que dominam o português padrão não levam em conta as variações lingüísticas, e quando consideram, é para acentuar o preconceito.
Sendo assim, observamos a necessidade de uma interação entre os que dominam a norma culta com os falantes de um modo geral, em prol de uma consciência de que sabemos falar nossa língua portuguesa, a fim de se considerar os contextos de falas e assumir que não existem “erros” de português.
Logicamente, precisa-se orientar os alunos que, ainda que dinâmica, a língua possui suas regras, por isso o ensino com base no português padrão só se justifica, quando trabalhado levando em consideração que não se trata de uma única via para se estudar a Língua Portuguesa. 
Para tanto, Bagno em “A língua de Eulália” ressalta que o “ensinar” é diferente de “educar”, por isso, julga-se necessário que o Português, enqanto língua materna, abarque as variações que existem dentro dele, uma vez que a tentativa de negação de fenômenos como o Yeísmo, empobrece o seu ensino.
Conclui-se que devemos aprender a respeitar as variedades da fala, bem como aprender a respeitar cada indivíduo indiferentemente da região, raça ou classe social a que pertence. Verifica-se a necessidade de minimizar os estereótipos daqueles que, sem muito esforço, enriquecem a Língua Portuguesa, pois cabe salientar que a língua se modifica continuamente, e o que hoje é “errado”, amanhã pode ser o “correto”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, Marcos.  A língua de Eulália: novela sociolingística.12 ed. São Paulo: Contexto, 2001.
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. . São Paulo: Loyola, 1999.
BELINE, Ronald. In: Introdução a linguítica. José Luiz Fiorin (org.).4 ed. São Paulo: Contexto, 2005.


[1] Toda a discussão feita a partir daqui, será pautada no capítulo intitulado “Liberdade, Fraternidade e igualdade: transformação de LH em I ” , do livro A língua de Eulália,  de Bagno.

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